A partir do final da Primeira Guerra Mundial, a
acentuada diminuição demográfica e a baixa taxa de natalidade observadas no
pós-guerra, motivaram a transferência crescente de parturientes para o ambiente
hospitalar, que oferecia cada vez mais segurança, objetivando salvaguardar a
vida das mães, e mais ainda, das crianças, sob perspectiva de aumento
populacional. A partir daí, os partos passaram a ser classificados a partir de
sua medicalização e instrumentalização como parto vaginal (normal) e operatório
(cesariana).
Sob influência da Escola Obstétrica Francesa, sob liderança de François
Mauriceau, a partir de 1700 o parto horinzontal, em posição litotômica foi
introduzido, sendo considerado na época a forma mais adequada aos costumes e a
posição mais cômoda para os obstetras, principalmente quando o uso do fórceps
se fazia necessário.
Todos estes fatores contribuíram para que o momento do parto passasse a ser
dirigido pelos médicos, tirando pouco a pouco a autonomia das mulheres. As
parteiras foram substituídas por médicos obstetras, ao passo que o parto normal
agora em ambiente hospitalar, deixou de ser um processo natural e passou a ser
conduzido com a gestante isolada, em salas de pré-parto coletivas, sem qualquer
privacidade, sem poder movimentar-se, impedidas de comer ou beber, com acesso
venoso para reposição hídrica, e drogas para acelerar o trabalho de parto. Após a
institucionalização do parto, muitas mulheres não conseguiram mais parir de
forma natural, por via vaginal, restando apenas a opção de realizar uma
cesariana ou a aplicação de fórceps. Essas experiências traumáticas, comumente
produzem efeitos lesivos irreversíveis sobre o bebê e a família. É absolutamente
comum nos partos hospitalares, que mãe e bebê sejam abruptamente separados,
imediatamente após o nascimento. Essa prática não é baseada em nenhuma evidência
científica e tem como base apenas a rapidez e a agilidade em atender o parto e
o produto final do mesmo, o recém nascido. No entanto, o contato pele a pele desencadeia
uma série de eventos hormonais importantes para a relação mãe-bebê. O toque, o
odor e o calor, estimulam o nervo vago e isto, por sua vez, faz com que a mãe libere
ocitocina, hormônio responsável, entre outras ações, pela saída e ejeção do
leite. Esse hormônio faz com que a temperatura das mamas aumente e aqueça o bebê.
Por outro lado, a ocitocina reduz a ansiedade materna, aumenta sua
tranquilidade e responsividade social. Neste contexto, podemos
afirmar que o tipo de parto pode facilitar ou dificultar a amamentação. Um
estudo realizado por Weiderpass e col. no ano de 1998, concluiu que os nascidos
por cesariana eletiva apresentavam um risco três vezes maior de interromper a
lactação no primeiro mês de vida. O
estabelecimento da lactação é mais precoce e efetivo no parto vaginal, uma vez
que não há o fator dor incisional ou o efeito pós-anestésico da cesárea,
dificultando, portanto, as primeiras mamadas. No parto normal, o primeiro
contato mãe-filho ocorre mais precocemente, enquanto que na cesárea,
dificilmente a criança vai até a mãe na primeira hora pós-parto,
prolongando, assim, o intervalo entre o parto e a primeira mamada, além de
propiciar a introdução de fórmula láctea ou glicose para o recém-nascido já no
berçário e, o que é pior, em mamadeira. Uma revisão sistemática sobre
o contato precoce pele a pele entre mães e seus bebês recém-nascidos, encontrou
efeitos positivos sobre a primeira mamada, amamentação de um a quatro meses pós-parto,
duração da amamentação, ingurgitamento mamário e o reconhecimento do odor do
leite materno pelo bebê. Nenhum efeito negativo foi encontrado. No entanto, o
contato precoce pele a pele é melhor possibilitado no parto normal, do que na
cesariana o que sugere que o parto normal sairia em vantagem se comparado a cesariana, no que diz respeito á amamentação. Segundo
a Organização Mundial de Saúde (OMS), por ser um alimento completo, o leite
materno deve ser fornecido exclusivamente desde o nascimento até os seis meses
de vida e sua continuidade com alimentos complementares é recomendada até os
dois anos de idade ou mais. Para a Academia Americana de Pediatria a
amamentação deve ser iniciada imediatamente após o nascimento e ser oferecida
em livre demanda, sem necessidade de introdução de suco, água ou outros
alimentos antes dos seis meses de vida. A partir dos anos 90
através de programas da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Fundo das
Nações Unidas para a Infância (UNICEF), houve um aumento nos índices de
aleitamento materno exclusivo. Analisando os dados do Demographic and Health
Surveys (DHS) para diversos países, observa-se que o aleitamento materno
exclusivo até 4 meses cresceu de 46% para 53%. E quando se considera
aleitamento materno exclusivo até os 6 meses, esse crescimento foi de 34% para
39%. Isso se deve principalmente á implementação da iniciativa Hospital Amigo
da Criança e do Código Internacional de Comercialização dos Substitutos do
Leite Materno. Dentre alguns benefícios do aleitamento materno para a saúde da
criança, podemos citar: redução da mortalidade infantil, proteção contra
infecções dos tratos intestinal e respiratório, menor risco de desenvolver
otites, menor risco de morbidade e mortalidade por diarreia, menor risco de
morte súbita, efeito protetor contra infecção urinária, além de que crianças
amamentadas apresentam médias mais baixas de pressão sanguínea e de colesterol
total, melhor desempenho em testes de QI e menor prevalência de
sobrepeso/obesidade e diabetes tipo 2. Para a saúde da
mulher, a amamentação representa uma série de benefícios como: redução de 4,3%
no risco de desenvolvimento de câncer de mama a cada 12 meses de amamentação,
menor risco de desenvolver osteoporose, aumento no espaçamento entre uma
gestação e outra, sendo a amamentação um método anticoncepcional, retorno ao
peso pré-gestacional mais rapidamente, e menor sangramento uterino
(consequentemente menor risco de anemia) devida a involução uterina mais rápida.
Para a família, o aleitamento materno representa ainda uma grande economia no orçamento
familiar, uma vez que não onera as despesas mensais com a compra de fórmulas
lácteas que muitas vezes são de custo elevado, além de que o aleitamento
materno previne doenças, o que reduz os gastos com consultas médicas e
internação.
Há também que se considerar
que amamentar é um ato ecológico, uma vez que o leite materno é talvez o único
alimento produzido e entregue ao consumidor sem poluir, sem provocar
desperdícios e sem embalagem. É um recurso renovável e extremamente benéfico do
ponto de vista de preservação do meio ambiente, ao contrário dos alimentos
artificiais que causam impacto ambiental esgotam os recursos naturais, não são
renováveis e provocam danos em cada estágio da sua produção, distribuição, uso
e descarte.
As indústrias responsáveis pela
fabricação dos leites artificiais e seus correlatos contribuem com constantes
agressões ao meio ambiente, uma vez que sua atividade provoca alterações no
ecossistema, esgotando os recursos naturais não renováveis desde as matérias
primas até o descarte das latas, do plástico das tampas, do plástico e do silicone
das mamadeiras. Outro ponto importante a ressaltar é o impacto causado pelo plantio
de pasto e a criação de gado para obter o leite, o que causa um grande impacto
ambiental tanto pela grande área desmatada, quando pelo emissão de gases
causada pelo gado. Outro ponto a destacar, é a transformação do leite de vaca
em leite em pó o que leva a um alto consumo de energia, uma vez que necessita
ser aquecido a temperaturas em torno de 160ºC. Também o leite de soja (principal
substituto para as fórmulas lácteas para bebês) consome grande quantidade de
energia, além de provocar poluição significativa da água se não houver um
tratamento prévio de seus despejos líquidos antes do lançamento no meio ambiente. Segundo relatório
da HSI (Humane Society International), organização que defende os direitos animais
e a preservação ambiental, a expansão do pasto para a pecuária é um fator chave
do desmatamento, principalmente na América Latina, e estima-se que algo em
torno de 70% da terra antes florestada da Amazônia é usada como pasto e plantações
cultivadas para produção de ração cobrem uma grande parte do restante. Praticamente
todas as etapas da cadeia produtiva de carnes, leites e ovos poluem o ar ou
contribuem para mudanças climáticas. O setor emite quantidades significativas
de dióxido de carbono (CO2), metano (CH4) e óxido nitroso
(N2O). As emissões de dióxido de carbono deste setor são geradas
pela fabricação de fertilizantes de nitrogênio para a produção de ração, pelo
uso de combustíveis fósseis dentro das propriedades e pelo desmatamento. A
fermentação entérica (fermentação microbiana que ocorre no sistema digestório de
animais ruminantes) foi responsável por cerca de 63% de todas as emissões de
metano no Brasil em 2005. Mundialmente , este processo é responsável por aproximadamente
25% da emissão dos Gases de Efeito Estufa (GEE). A agropecuária é também
responsável por pela maior parte das emissões globais de óxido nitroso, originadas
principalmente, dos dejetos e fertilizantes aplicados nas plantações cultivadas
para a produção de ração, e contribuem com aproximadamente 31% das emissões de
GEE da atividade pecuária. Tendo estes dados em mente, considera-se que a
amamentação é um ato ecológico, e ainda que seja em pequena parcela, contribuí
para a preservação do meio ambiente, especialmente a amamentação prolongada,
mantida conforme preconiza a OMS, até os dois anos de idade ou mais, pois evita
o consumo de leite de vaca e outros recursos naturais.
Créditos:
Este texto foi extraído da Dissertação de Mestrado intitulada: IMPACTO
DO TIPO DE PARTO SOBRE O ESTADO NUTRICIONAL DO BINOMIO MAE-FILHO.
Dissertação para obtenção do grau de Mestre em Nutrição e Dietética com Especialização em Nutrição e Atividade Física para Crianças e Adolescentes
Departamento de Pós-Graduação
Universidad Europea del Atlántico - UNEATLANTICO - Espanha - 2016
* Imagem: Parto da Giovanna, minha caçula <3
